sabiá vai a frankfurt

Para a jornada de protestos contra as imposições da Troika (Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e Comissão Europeia) aos países em crise na Europa, eram esperadas de 30 a 40 mil pessoas em Frankfurt am Main nos dias 17 a 19 de maio. O chamado Blockupy Frankfurt incluía um grande ato, o bloqueio da área central da cidade, além de debates, acampamentos e festas onde estão situados o Banco Central Europeu, outros bancos e importantes grupos financeiros. No entanto, as coisas não saíram exatamente conforme o planejado. Seja pelo momento de relativa fragilidade de Angela Merkel no cenário europeu com a vitória de François Hollande na França e a instabilidade no parlamento grego, seja pela incômoda localização dos protestos – o centro financeiro de Frankfurt e seu alvo preciso, a hegemonia alemã na zona do Euro –, ou seja ainda pelo caráter internacional e abrangente do encontro, o fato é que houve uma ação massiva para impedir por muitos meios as manifestações. Já de início, o Blockupy, bem como qualquer protesto na cidade durante os três dias, foi proibido. Mais tarde, graças à ação dos organizadores, foi liberado o ato do dia 19.

Sob essas condições, partimos de Berlim na madrugada do dia 17 em três ônibus, assim como outros companheiros de diversos lugares da Alemanha e da Europa. Partimos ademais sob ameaça de prisão e, ao menos em Berlim, sob vigilância da polícia. Quando se aproximavam de Frankfurt na manhã seguinte, os três ônibus foram escoltados por uma gigante comitiva de veículos policiais, que indicava um desvio por uma estrada secundária até um amplo pátio num posto improvisado. Ali havia cerca de trinta viaturas, ambulância, banheiros químicos e talvez uns cem “Bullen” – como são apelidados os policiais alemães, que parecem verdadeiros robocops. Nesse lugar fomos mantidos por várias horas enquanto éramos revistados, registrados e filmados. Cada um recebeu um documento de interdição de entrar no centro expandido de Frankfurt e um mapinha  da cidade com indicações de onde estávamos proibidos de circular.

O primeiro ônibus foi liberado depois de duas horas e seguiu escoltado pela polícia para uma cidade nos arredores de Frankfurt. O segundo aguardou quase seis horas e, depois de muita negociação, foi escoltado até outra cidade em que o transporte público estava interrompido para impedir o acesso ao centro de Frankfurt. O terceiro ônibus, como depois nos inteiramos, foi conduzido dali diretamente a uma delegacia, e os manifestantes só foram liberados à uma hora da manha do dia 18, ou seja, 17 horas depois de sua intercepção na estrada.

Nossa suspeita acabou por se confirmar: a interdição de entrar na cidade que recebemos não tinha valor jurídico algum. Prova disso é que companheiros presos mais tarde durante os protestos e que já tinham uma interdição não foram prejudicados. Tratava-se apenas de um meio de intimidação. Contudo, ainda que os manifestantes “sequestrados” pela polícia não tenham sido “oficialmente” fichados e nem venham a sofrer maiores consequências do ponto de vista jurídico – afinal de contas não há nenhuma acusação contra eles – nada nos faz pensar que os dados coletados pela polícia, inclusive os vídeos, serão apagados. Essas informações ficarão para sempre nos sistemas da policia alemã, sabe-se lá para que uso.

Depois dessa coerção muito cirúrgica nos arredores de Frankfurt, chegamos à cidade como pudemos – apesar da falta de transporte público e do controle da polícia em diversos pontos – intimidados e desarticulados. Tínhamos sido postos na ilegalidade antes mesmo de fazer qualquer coisa.  Na quinta e na sexta-feira a polícia tratou de impedir que grandes grupos se juntassem e que se posicionassem na região dos bancos. Prendeu centenas de manifestantes, distribuiu outras advertências e encurralou pequenos grupos na rua, mantendo-os bloqueados por minutos ou horas. Tudo isso fez com que os Blockupy se dispersassem mais e mais, renunciando a seus planos iniciais e agindo de maneira espontânea e desordenada. Grupelhos corriam pela cidade carregando suas bandeiras e saltando muros para conquistar uma esquina, uma praça, ainda que por poucos instantes.

Na sexta-feira de manhã, o centro financeiro de Frankfurt estava interditado. Os bancos e o comércio estavam fechados. Estações de metrô foram fechadas e linhas de bonde interrompidas. Ninguém podia passar, de carro ou a pé. Ao contrário dos planos iniciais, o bloqueio não era feito por manifestantes, e sim pelos “Bullen” que eram visivelmente em maior número do que nós (eles eram 5 mil, nós, talvez, a metade disso). Tratava-se, está claro, da disputa por um território simbólico. E eles o ganharam.

Ao menos no sábado a passeata ocorreu sem incidentes. Havia mais de 30 mil manifestantes, segundo os organizadores ou 25 mil, segundo os jornais. Esse ato não nos colocou na capa de nenhum grande jornal. Resta saber qual será o custo político a ser pago pelo governo de Merkel por essa repressão inédita.

por Lia I. Ishida

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